Jornalistas em crise

Larguei esse texto no meu rascunho há uns dois meses. Relutei, mas resolvi retomá-lo. Pega um sal de frutas e vem comigo.

Nunca foi fácil, mas os últimos meses têm sido especialmente ruins para os jornalistas. Além das horas extras não-remuneradas, do modelo “frila-fixo” de contrato e outras bizarrices típicas da profissão, as demissões em massa (que, no jornalismo, atendem pelo nome de passaralho) se tornaram mais presentes do que nunca, deixando um clima de terror em várias redações.

Na última semana, 150 foram demitidos da Editora Abril e três revistas acabaram. Rádio Bandeirantes e Bradesco Esportes também fizeram cortes. Meses antes, Folha, Record, Trip e a mesma Abril haviam cortado equipes.

Fora do Brasil, a coisa não tá muito melhor. O Chicago Sun Times trocou todos seus fotojornalistas por repórteres munidos de iPhone. O Boston Globe foi vendido por 10% do seu valor há 20 anos. E o Washington Post foi vendido para o Jeff Bezos – que vem a ser o dono da gigante Amazon.

E tudo cai, direta ou indiretamente, no tal ajuste de gestão.

Ou seja: grana. Ou melhor: falta dela.

Imagem

Tempo bom que não volta nunca mais

Cadê o dinheiro?

Há alguns anos eu vivo de fazer com que as empresas jornalísticas (no meu caso específico, portais) ganhem mais dinheiro com o conteúdo que produzem, trabalhando no que carinhosamente chamo de Faixa de Gaza: o meio do caminho entre publicidade e jornalismo. E mesmo no meio digital (que não tem a internet pra usar como bode expiatório) os obstáculos são muitos, do lado dos veículos e dos clientes.

Não estou dizendo que esta via (de conteúdos patrocinados e publieditoriais) seja a única ou a melhor, mas é uma possibilidade. Assim como são as assinaturas, o paywall, os banners – ou tudo isso junto.

A real é que não é preciso ser nenhum guru de finanças para entender que as empresas jornalísticas não encontraram um modelo de negócios próspero. Elas ficaram se apoiando em modelos antigos até a água chegar no pescoço. E agora têm que correr.

Está claro que não adianta só demitir e cortar gastos. É preciso reestruturar as empresas e repensar seu papel na sociedade (e no mercado). É preciso parar de bater de frente com a tal da internet e abraçá-la, tentar entender como o jornalismo faz sentido no mundo digital.

Além de repensar o modelo, é preciso fazer uma coisa que a imprensa brasileira se recusa: entender o leitor. O que ele quer? Como consome informação? Ele está conectado? Quando? De que forma? Qual conteúdo ele pagaria para consumir? Qual valor ele vê no jornalismo? Ele se vê representado?

Perguntas, perguntas, perguntas…

Retrato da Mídia Ninja - o que quer que ela represente

Retrato da Mídia Ninja – o que quer que ela represente. Foto daqui.

Referências

Montei uma lista com as várias coisas que li nesse meio tempo sobre a tal “crise do jornalismo” (não concordo com essa tal crise, mas isso fica pra outro post). Os mais interessantes estão abaixo. Se tiver mais indicações, vai mandando que eu incluo.

A revoada dos passaralhos

Todo dia tem jornalista sendo demitido, mas poucos falam sobre o assunto. A reportagem fala com esses poucos dispostos a contar os bastidores dos passaralhos.

Existe crise nos impressos?

Na hora de demitir, os jornais culpam a crise. Na hora de falar com o mercado, dizem que a circulação aumentou e a receita está maravilhosa. Afinal: existe ou não crise nos meios impressos??

Ficaralho – se fode quem fica

Sem dúvida o texto mais polêmico de todos publicados sobre o assunto. Ao refletir sobre o impacto das demissões nas redações (spoiler: a conclusão é “se fode quem fica”), Bruno Torturra sugere um caminho diferente: a mídia independente. Foi o texto que apresentou a Mídia Ninja pro mundo – apesar dela já existir como “Fora do Eixo” antes.

Jornalista: a pior profissão do mundo

Em 2013, conseguimos: é pior ser jornalista que lenhador. A vida em uma “redação convergente” faz com que o repórter acumule funções, tenha uma jornada exaustiva (sem, claro, receber hora extra) e viva à espera do passaralho. [o ranking com 200 profissões está aqui]

Sobre parmera, passaralhos e novas mídias

Esqueça o time do título que o assunto aqui é jornalismo. A (des)demissão do Mauro Beting deixou claro o que a gente fingia não ver: a imprensa brasileira está na mão de poucos – e poucos que fazem o que querem com ela. E aí?

E aí? Chegou a alguma conclusão?

–update em 13.08–

Para quem não viu, eis a íntegra do Roda Viva com o Mídia Ninja/Fora do Eixo

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Uma resposta em “Jornalistas em crise

  1. Pingback: [pra ler] A adaptação do Financial Times aos “novos tempos” | Só mais uma coisa…

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