Documentário imperdível: The Internet’s Own Boy

Assisti ontem ao documentário sobre Aaron Swartz, um dos criadores do Reddit, e fiquei tão mobilizada / impressionada / tocada que resolvi tirar o pó do blog e fazer um post.

((É óbvio que o post abaixo tem spoilers do filme, mas como todo documentário o que vale é a história e não o desfecho))

Com pouco mais de 1h30 de duração, o documentário conta a história de um cara incrivelmente talentoso, que respirava web e via na programação (e na internet, por consequência) uma forma de melhorar o mundo.

O “melhorar o mundo” de Swartz, na verdade, era algo bem simples: usar a internet para democratizar a informação, facilitando o livre acesso a dados, livros e tudo mais o que fosse público. E eles conseguiu promover mudanças nesse sentido em diversos momentos, inclusive colaborando ativamente para que os EUA não fossem à frente com a Lei de Combate à Pirataria (SOPA) – que, na real, era um grande ataque à liberdade de expressão (mais sobre a SOPA aqui).

O problema é que suas ações incomodavam muita gente e rapidamente o FBI e o Serviço Secreto entraram na história. Aaron foi processado criminalmente por ter feito o download em massa de uma série de artigos acadêmicos de forma ilegal. A pena previa mais de 35 anos de cadeia e uma multa milionária. (sim, prisão por ter feito download de coisas que deveriam ter acesso público. Exagero, não?)

Antes do julgamento, Aaron cometeu suicídio.

A história toda está no documentário “The Intern’s Own Boy”, disponível na íntegra no Youtube:

Offline por opção

O minidoc “No Internet Week” mostra cinco nativos digitais (os que nasceram quando a internet já era popular) que aceitaram ficar completamente offline por uma semana. Da ansiedade de não saber o que as pessoas estão postando à experiência inédita de escrever a primeira carta, tá tudo lá.

E é inevitável pensar: e se fosse comigo?

No internet week

Eu venho travando uma batalha pessoal e silenciosa para diminuir o meu tempo online. Sei lá, um dia fiz as contas e percebi que ficava mais tempo olhando telas do que pessoas e resolvi tentar inverter isso.

Não é uma questão de ficar sem internet de vez (impossível), mas de tirar da vida o que não acho essencial. Algumas coisas que já consegui fazer:

  • Consigo passar uma refeição quase inteira sem olhar pro celular. Ainda não consigo deixar o aparelho o tempo todo na bolsa, mas estou tentando.
  • Não vejo mais email do trabalho fora do trabalho. Na real, nem recebo mais os emails do trabalho no celular.
  • Só posto foto de momentos que quero lembrar e imagens que quero guardar. Não sinto vontade nenhuma de postar selfies (um apelo: parem com a overdose de selfies!).
  • Filtro muito mais o que vale a pena ou não ler. Sempre guardei mil links pra “ler um dia”, coisa que raramente fazia. Agora só guardo o que vale mesmo.
  • Ainda nesse tópico: me coloquei uma meta de livros para ler por mês. A ideia aqui é fazer algo que me obrigue a largar o maldito celular por um tempo.
  • Essa ainda é um esforço tremendo e nem sempre consigo: só pego o celular meia hora depois de acordar e largo o aparelho meia hora antes de dormir.

E vocês? O que vocês fazem para sair do online e se dedicar ao offline? Ou acham isso uma besteira?

Ainda sobre esse assunto, uma ótima matéria do Aeon sobre FoMO – Fear of Missing Out (aquela ansiedade que dá quando a gente percebe que não consegue acompanhar o ritmo da internet). Um trechinho, em tradução minha:

“Estar conectado a todo mundo, o tempo todo, é uma nova experiência humana, nós ainda não estamos aptos a lidar com isso. (…) A melhor forma de lidar com o FoMO é reconhecer que, nesse ritmo de vida frenético, nós às vezes vamos perder o fio da meada. E quando conseguirmos isso, teremos a oportunidade de melhorar as consequências das escolhas que fizemos”

Quando você percebeu que ia morrer?

Eu penso poucas vezes na morte. Na minha e na de quem eu gosto. Ainda assim, quando penso no assunto, vem alguém dizer pra “não pensar nisso”. 

Vivemos com a certeza de que a pior coisa que pode nos acontecer vai acontecer. E ainda assim vivemos com medo desse momento.

E se a gente pensasse a vida como um livro, com as duas capas representando o nascimento e a morte? Seu livro pode ser um épico ou uma tirinha de jornal. As histórias mudam e, mais importante: os personagens não têm medo que o fim do livro chegue.

É isso que o filósofo Stephen Cave propõe. Gaste 15 minutos vendo “As 4 histórias que nos contamos sobre a morte”:

Viver do que se gosta

Toda manhã chuvosa de frio a gente acorda e lamenta não ter coragem de largar tudo para viver do que gosta. Abrir uma loja de bolo de fubá, montar um site de cartões personalizados, virar massagista, sei lá. Um desses sonhos fora mundo-engravatado-bate-cartão, sabe?

O querido Fernando Brito fez isso. Trocou a vida corporativa numa das maiores empresas do mundo para viver de música. O Brito (ou “Samba”, para os amigos) é o vocalista à frente da Banda DoBrás e faz um groove brasileiro que não deixa ninguém parado (Tim Maia, Jorge Ben, Simonal, essa galera toda “aparece” num show dele).

Em “Living With Samba” ele fala um pouco da relação com a música:


Living with Samba from Mr Pink Filmes on Vimeo.

Viver do seu sonho (qualquer que seja ele) significa viver sem saber se a conta vai fechar no fim do mês. Mas é garantia de momentos muito felizes durante o trabalho. Coisa que o mundo-engravatado-bate-cartão não tem como providenciar.

Para fechar, um groove do DoBrás, para vocês terem uma ideia do que estou falando:

#procuresaber

Pra quem ainda não leu: o escritor Benjamin Moser dá uma bordoada em Caetano em relação à história da proibição de biografias não-autorizadas. Na Folha de hoje >> Carta aberta a Caetano.

Pra quem não sabe exatamente do que tô falando: a iniciativa “Procure Saber” – que reúne figurões como Caetano, Chico e Roberto Carlos – quer que seja proibida por lei a comercialização de biografias não-autorizadas. Sim, os caras que foram censurados por anos querem censurar.

Como você é burro, caraCaras, vocês são muito burros mesmo.

Eu não sou a mulher que você pensa

Semanalmente, leio o Meio e Mensagem e sempre me espanto com a falta de mulheres “de expressão” no mercado publicitário, especialmente na área de criação.

Óbvio que existem mulheres sensacionais nas agências, mas por que elas não aparecem?

Daí que topei com um texto que fala justamente do resultado dessa falta de mulher, sobretudo da classe C/D, na publicidade: criação de anúncios que não falam com a gente, que não entendem o que queremos.

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Olha só algumas informações legais que o diretor do Instituto Data Popular, Renato Meirelles, fala na matéria:

  • Hoje, 38% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres.
  • Estamos falando de uma miopia das agências de publicidade, que têm entre os seus criativos, em boa parte, homens que dialogam com o universo masculino e ainda acreditam que a aspiração dessa nova mulher é ser como as europeias: altas, brancas, cabelos lisos.

  • A mulher brasileira está envelhecendo, é majoritariamente negra e tem muito mais curvas que a média das mulheres do mundo. Mas as agências de publicidade trabalham com um ideal de beleza do passado, de mulheres altas, magras, loiras e de olhos claros.

  • A mulher quer uma comunicação que a inspire a melhorar um pouco mais de vida, mas não a deixar de ser quem ela é.

  • Para conquistar essa nova mulher, a função da propaganda é, em primeiro lugar, criar identidade; em segundo lugar, inspirar essa mulher a melhorar de vida, se sentir mais bonita e feliz; e, em terceiro lugar, gerar propaganda boca a boca.

  • É uma miopia do ponto de vista de oportunidades de negócios que a consumidora negra seja apresentada como a empregada doméstica e não como a mulher que decide e está no mercado de trabalho exercendo múltiplas funções.

  • De cada 10 pessoas que saíram da classe D e foram para a classe C, 8 são negros. Foram os negros os grandes responsáveis pela ascensão econômica do Brasil. Embora por mais que a desigualdade no Brasil tenha diminuído ela ainda seja gigantesca: 3/4 das classes A e B são brancos e 3/4 das classes D e E são negros. 

Resumindo, nas palavras do próprio Renato Meirelles:

Portanto, não se trata de ser politicamente correto ou incorreto, mas de ter uma comunicação que funcione ou não. 

 

Para ler o texto completo, na Revista Forum, é só clicar: “E a publicidade começa a divorciar-se da mulher…”

Jornalistas em crise

Larguei esse texto no meu rascunho há uns dois meses. Relutei, mas resolvi retomá-lo. Pega um sal de frutas e vem comigo.

Nunca foi fácil, mas os últimos meses têm sido especialmente ruins para os jornalistas. Além das horas extras não-remuneradas, do modelo “frila-fixo” de contrato e outras bizarrices típicas da profissão, as demissões em massa (que, no jornalismo, atendem pelo nome de passaralho) se tornaram mais presentes do que nunca, deixando um clima de terror em várias redações.

Na última semana, 150 foram demitidos da Editora Abril e três revistas acabaram. Rádio Bandeirantes e Bradesco Esportes também fizeram cortes. Meses antes, Folha, Record, Trip e a mesma Abril haviam cortado equipes.

Fora do Brasil, a coisa não tá muito melhor. O Chicago Sun Times trocou todos seus fotojornalistas por repórteres munidos de iPhone. O Boston Globe foi vendido por 10% do seu valor há 20 anos. E o Washington Post foi vendido para o Jeff Bezos – que vem a ser o dono da gigante Amazon.

E tudo cai, direta ou indiretamente, no tal ajuste de gestão.

Ou seja: grana. Ou melhor: falta dela.

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Tempo bom que não volta nunca mais

Cadê o dinheiro?

Há alguns anos eu vivo de fazer com que as empresas jornalísticas (no meu caso específico, portais) ganhem mais dinheiro com o conteúdo que produzem, trabalhando no que carinhosamente chamo de Faixa de Gaza: o meio do caminho entre publicidade e jornalismo. E mesmo no meio digital (que não tem a internet pra usar como bode expiatório) os obstáculos são muitos, do lado dos veículos e dos clientes.

Não estou dizendo que esta via (de conteúdos patrocinados e publieditoriais) seja a única ou a melhor, mas é uma possibilidade. Assim como são as assinaturas, o paywall, os banners – ou tudo isso junto.

A real é que não é preciso ser nenhum guru de finanças para entender que as empresas jornalísticas não encontraram um modelo de negócios próspero. Elas ficaram se apoiando em modelos antigos até a água chegar no pescoço. E agora têm que correr.

Está claro que não adianta só demitir e cortar gastos. É preciso reestruturar as empresas e repensar seu papel na sociedade (e no mercado). É preciso parar de bater de frente com a tal da internet e abraçá-la, tentar entender como o jornalismo faz sentido no mundo digital.

Além de repensar o modelo, é preciso fazer uma coisa que a imprensa brasileira se recusa: entender o leitor. O que ele quer? Como consome informação? Ele está conectado? Quando? De que forma? Qual conteúdo ele pagaria para consumir? Qual valor ele vê no jornalismo? Ele se vê representado?

Perguntas, perguntas, perguntas…

Retrato da Mídia Ninja - o que quer que ela represente

Retrato da Mídia Ninja – o que quer que ela represente. Foto daqui.

Referências

Montei uma lista com as várias coisas que li nesse meio tempo sobre a tal “crise do jornalismo” (não concordo com essa tal crise, mas isso fica pra outro post). Os mais interessantes estão abaixo. Se tiver mais indicações, vai mandando que eu incluo.

A revoada dos passaralhos

Todo dia tem jornalista sendo demitido, mas poucos falam sobre o assunto. A reportagem fala com esses poucos dispostos a contar os bastidores dos passaralhos.

Existe crise nos impressos?

Na hora de demitir, os jornais culpam a crise. Na hora de falar com o mercado, dizem que a circulação aumentou e a receita está maravilhosa. Afinal: existe ou não crise nos meios impressos??

Ficaralho – se fode quem fica

Sem dúvida o texto mais polêmico de todos publicados sobre o assunto. Ao refletir sobre o impacto das demissões nas redações (spoiler: a conclusão é “se fode quem fica”), Bruno Torturra sugere um caminho diferente: a mídia independente. Foi o texto que apresentou a Mídia Ninja pro mundo – apesar dela já existir como “Fora do Eixo” antes.

Jornalista: a pior profissão do mundo

Em 2013, conseguimos: é pior ser jornalista que lenhador. A vida em uma “redação convergente” faz com que o repórter acumule funções, tenha uma jornada exaustiva (sem, claro, receber hora extra) e viva à espera do passaralho. [o ranking com 200 profissões está aqui]

Sobre parmera, passaralhos e novas mídias

Esqueça o time do título que o assunto aqui é jornalismo. A (des)demissão do Mauro Beting deixou claro o que a gente fingia não ver: a imprensa brasileira está na mão de poucos – e poucos que fazem o que querem com ela. E aí?

E aí? Chegou a alguma conclusão?

–update em 13.08–

Para quem não viu, eis a íntegra do Roda Viva com o Mídia Ninja/Fora do Eixo